O código é seu: o que acontece se o desenvolvedor sumir
A única resposta a essa pergunta que não depende de ninguém estar por perto é artefato, não gente. E dá para exigir por contrato, antes de a primeira linha ser escrita.
A resposta que serve não é "temos uma equipe grande". É o código estar no seu repositório desde o primeiro dia, documentado e coberto por teste — porque essa é a única resposta que continua verdadeira mesmo quando quem escreveu não está por perto.
Equipe grande também acaba. Sócio sai, empresa fecha, contrato é rescindido. Contar pessoas responde a pergunta com algo que pode desaparecer; contar artefato responde com algo que fica.

O que "o código é seu" tem que significar
A frase é fácil de dizer e quase nunca é verificada. Ela precisa significar quatro coisas, e as quatro dá para conferir antes de assinar:
1. O repositório está numa conta sua. Não numa conta do fornecedor à qual você tem acesso — numa organização registrada no nome da sua empresa, onde você é o dono e pode remover qualquer pessoa. Acesso concedido é acesso que pode ser retirado; propriedade não.
2. O histórico está lá inteiro. Um repositório entregue no fim, com um único commit chamado "versão inicial", não é histórico — é um arquivo zipado com outro nome. O valor do histórico é poder responder "por que isto foi feito assim" daqui a dois anos.
3. Existe documentação de como subir. Não manual de usuário: as instruções para outro desenvolvedor colocar o projeto para rodar na máquina dele e publicar uma alteração. Se essa informação vive na cabeça de alguém, o código é seu e inútil ao mesmo tempo.
4. Existe teste automatizado. Teste é a documentação que não mente. Ele descreve o comportamento esperado de um jeito que o computador confere — e é o que permite outro desenvolvedor mudar alguma coisa sem medo de quebrar o que já funcionava.
O teste que separa promessa de fato
Peça isto antes de fechar: acesso ao repositório de um projeto que a pessoa já entregou, mesmo que só de leitura, mesmo que por quinze minutos. Se o trabalho é aberto, o link resolve.
O que olhar em quinze minutos:
- As mensagens de commit dizem alguma coisa? "ajustes", "correções", "wip" trinta vezes seguidas é um histórico que não vai ajudar ninguém.
- Existe um arquivo explicando como rodar? Geralmente
README.md, na raiz. - Existe pasta de teste, e ela tem conteúdo?
- A última alteração é de quando? Projeto entregue e nunca mais tocado é um dado, não necessariamente um problema — mas é uma conversa que vale ter.
Nada disso exige que você saiba programar. São quatro perguntas de leitura.
Por que isto virou pergunta de compra
Contratar um profissional só, ou uma equipe pequena, tem uma vantagem que empresa grande não consegue oferecer: você fala com quem escreve o código, sem intermediário e sem repasse.
E tem um risco real que precisa ser respondido de frente, não desconversado: essa pessoa pode ficar indisponível. Adoecer, mudar de área, sumir.
A resposta ruim é inflar o time. A resposta boa é tornar o projeto independente de quem o construiu — e isso não é favor nem gentileza, é uma característica técnica que se verifica. Um projeto com repositório seu, histórico legível, documentação de operação e testes passando é um projeto que qualquer desenvolvedor competente assume em poucos dias.

O que colocar no contrato
Três linhas resolvem, e nenhuma delas é polêmica para quem trabalha assim:
- O código-fonte é de propriedade da contratante, entregue em repositório sob conta da contratante, com histórico completo.
- A entrega inclui documentação de instalação, execução e publicação.
- A entrega inclui a suíte de testes automatizados executada na entrega.
Se um fornecedor resistir às três, o problema não é jurídico. É que ele está vendendo dependência, e a dependência é o produto.
E a manutenção continua fazendo sentido
Vale ser honesto sobre o outro lado: nada disso significa que você deva trocar de desenvolvedor. Quem construiu conhece as decisões, e continuar com quem conhece costuma ser mais barato do que recomeçar.
O ponto é outro. Você deve continuar porque quer, não porque não tem alternativa. Essa diferença muda a conversa inteira — de renovação, de prazo, de preço — e é a única coisa nesta lista que não dá para instalar depois.